quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Cuba também é arte...


Quem visita Cuba não tem, necessariamente, o intuito de apreciar obras de artes em museus. Muito mais do que pela arte, a Ilha de Fidel é conhecida pelo seu sistema político, a forma de vida da população e a animação e beleza natural. Mas como acreditamos que a forma de arte de um povo diz muito sobre ele, e tínhamos dias suficientes para conhecer, também, os roteiros mais alternativos, separamos um dia para fazer um tour nos museus cubanos.

Exploramos os Museus de Belas Artes (5 CUC´s a entrada, sem direito à máquinas fotográficas), da Revolução e Memorial Granma (6 CUC´s de entrada, mais 2 CUC´s da Máquina Fotográfica). Admirar de perto as fotos de Fidel e Che e conhecer detalhes da revolução, com documentos históricos como cartas, fotos e até mesmo carros e aviões baleados ou semi-destruídos é imperdível - e até emocionante. Além de tudo isso, a visita ao Museu da Revolução nos brindou, ainda, com o encontro com uma excursão de alunos de escolas cubanas, que desde cedo recebem toda e qualquer influência pró-socialismo e antiamericanismo.

Mas a descoberta que valeu meu dia dedicado aos museus estava no Museu de Belas Artes. Mais do que fotos e documentos históricos, foi o artista Rubén Torres Llorca, nascido em 1957, em Havana, que conseguiu me fazer entender toda a riqueza, sentimento e contradição do povo cubano. Caminhei por belíssimos quadros e expressivas esculturas no terceiro piso, mas a obra batizada pelo sugestivo nome de “esta es tu obra”, no segundo piso, foi o que me paralisou pelos próximos 20 ou 30 minutos, fazendo com que eu encerrasse ali a minha visita ao prédio.

Com mais de 2 metros de altura, a obra de Rubén Torres Llorca é feita de óleo, madeira, gesso policromado e plástico e mescla frases e figuras, ou pequenas esculturas, que expressam a forma de pensar dos moradores da ilha. Enquanto dava a volta na obra de arte, pude entender com um pouco mais de profundidade todas as impressões que havia tido nas minhas conversas com os nativos, na ânsia de entender o que eles pensam sobre o sistema.

As respostas vinham a cada detalhe novo da peça que me saltava os olhos naquela tarde no museu: “Tu conoces el poder e su uso”; Tu conoces el esfuerzo y el valor. la voluntad y la cólera”; Tu conoces el limite y la frontera; “tu conoces que caminos puedes”; “tu conoces la angustia de la victoria”; “tu conoces la ira apreendida. El ódio condicionado”; “tu conoces el tradiciones e concesiones”; “tu conoces la espera, la paciência, el tédio” e “esta es tu obras, este es tu espejo, esta es tu consciência”.

Enfim, como toda a obra, a “esta es tu obra” está aberta a todo tipo de interpretação. Mas, mesmo isenta de toda a criatividade do espectador, a escultura em si própria já é um baita recado e um excelente material de estudo e reflexão. Para quem acha que os Museus são dispensáveis em Cuba, nosso querido escultor Rubén Torres Llorca está ai para provar o contrário.

E, como não poderia deixar de ser, encerro este post com mais uma frase daquele que se tornou meu artista preferido da ilha: “toca la campaña. Es tu oportunidade de ser escuchado”. Para um país em que a liberdade de expressão é vista quase como uma arma, este é um belo recado...



SERVIÇO:

Museu de La Revolución (Calle Refúgio 1) – Instalado no antigo Palácio presidencial do ditador Fulgencio Batista. O edifício foi inaugurado em 1920 e serviu de moradia para 21 presidentes, até 1965. O foco é na revolução, das guerrilhas até o Período Especial (1990). Todos os dias, das 10h às 17h

Memorial Granma – Um pavilhão de vidro e cimento localizado atrás do Museu de La Revolución. Abriga, entre outras coisas, o iate Granma – que em 1956 trouxe Fidel Castro e seus companheiros do México até Cuba para iniciar a luta armada contra Batista e o caminha de entrega usado pelos revolucionários para atacar o palácio em 1957. Todos os dias, das 10h às 17h

Museu de Bellas Artes (Calle Trocadero) – Todo dedicado à arte cubana. São dois andares com galerias divididas em três seções: arte colonial, acadêmica e do século 20. Abre de terça à sábado, das 10h às 18h e domingo das 10h às 14h.

2 comentários:

  1. Muito bom este post!
    É bom conhecermos um pouco de Cuba por meio de quem já esteve lá!

    Saudades amiga!
    To esperando o nosso encontro até hoje!rsrsrs

    Beijos

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  2. Estou emocionada.
    Ler cada post só aumenta a vontade de ir à Ilha!
    As fotos estão lindas.
    Parabéns, moças.

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